Angola dá mais um passo para reduzir a dependência do dólar e do euro nas transações internacionais. O BAI e o BFA, os dois maiores bancos do país, começaram a preparar a sua entrada como participantes diretos no CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), a infraestrutura chinesa que processa e liquida operações em yuan.
A operação não é imediata: deverá levar cerca de um ano até se concretizar, período em que cada banco terá de abrir uma conta de liquidação junto de uma instituição financeira chinesa de grande dimensão.
Pressão de Pequim sobre empresas chinesas
Por trás deste movimento está uma pressão crescente de Pequim sobre as empresas chinesas instaladas em Angola, em particular as de maior peso económico, para que passem a liquidar pagamentos e a repatriar lucros através deste circuito próprio, em vez de recorrerem aos sistemas tradicionais em dólares ou euros.
Uma fonte com conhecimento direto do processo explicou ao Jornal Expansão que qualquer movimento financeiro em yuan — envolvendo a China ou até outros países — deverá passar obrigatoriamente pelo CIPS.
Em Angola, o Banco da China já opera como participante direto nesta plataforma, posição que o BAI e o BFA deverão conquistar nos próximos meses.
BNA autoriza reservas obrigatórias em yuan
Este avanço soma-se a outra mudança recente: o Banco Nacional de Angola autorizou, na semana passada, que os bancos comerciais constituam parte das suas reservas obrigatórias em yuan, moeda que passa assim a integrar um lote restrito composto até agora apenas por dólar, euro e rand.
Implicações estratégicas
A entrada do BAI e do BFA no CIPS representa um movimento estratégico com implicações significativas:
1️⃣ Diversificação de dependência cambial: Reduz exposição exclusiva ao dólar e ao euro em transações internacionais
2️⃣ Facilitação de comércio com a China: Empresas angolanas e chinesas poderão liquidar transações diretamente em yuan, reduzindo custos de conversão cambial
3️⃣ Alinhamento com política externa: Reflete aprofundamento das relações económicas entre Angola e China
4️⃣ Redução de risco de sanções: Operar fora do circuito SWIFT/dólar reduz exposição a sanções financeiras ocidentais
Contexto geopolítico
A aposta no CIPS insere-se num movimento mais amplo de desdolarização que vários países têm vindo a explorar, particularmente aqueles com fortes ligações económicas à China ou expostos a riscos de sanções financeiras ocidentais.
Para Angola, com a China como principal parceiro comercial (importações de bens, investimento em infraestruturas, crédito), a integração no CIPS pode facilitar transações e reduzir custos operacionais.
