As empresas chinesas têm vindo a reforçar de forma significativa a sua presença económica em África, com investimentos avultados em portos, transportes e indústria que consolidam a influência de Pequim no continente. Os projetos mais recentes abrangem países como Quénia, Marrocos e Angola, e traduzem uma alteração de estratégia: em vez de dependerem de empréstimos com aval estatal, as sociedades chinesas têm optado cada vez mais pelo investimento direto e pelo financiamento privado.
Quénia: expansão do aeroporto de Nairobi
No Quénia, a China Road and Bridge Corporation assinou, em junho de 2026, um acordo de 1,2 mil milhões de dólares destinado à expansão do Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, que deverá elevar a sua capacidade anual de 7,5 milhões para 22 milhões de passageiros.
Marrocos: primeira gigafábrica de baterias de África
Em Marrocos, a fabricante de baterias Gotion High-Tech está a construir uma unidade de veículos elétricos avaliada em 1,3 mil milhões de dólares — apontada pelas autoridades locais como a primeira gigafábrica de baterias de África, com arranque de produção previsto para 2026.
A empresa poderá vir a investir até 6,5 mil milhões de dólares à medida que expande a sua capacidade produtiva. Em março de 2026, a Cidade Tecnológica Mohammed VI, em Tânger, tinha já assegurado cerca de 3,5 mil milhões de dólares em investimentos planeados por 42 empresas, das quais 34 chinesas.
Angola: Terminal Portuário da Barra do Dande
Angola é o mais recente exemplo desta vaga de investimento. A Huatong Angola Industry, em parceria com o fundo Berkshire Waterhouse Infrastructure Development, comprometeu 900 milhões de dólares para a construção e exploração do Terminal Portuário da Barra do Dande, na província do Bengo, por um período de 25 anos.
O acordo foi assinado em Luanda, no dia 20 de julho, entre a Huatong, a Berkshire Waterhouse e a empresa estatal Barra do Dande Development Company.
Segundo Zhang Wendong, presidente da Huatong Angola Industry, o novo terminal irá melhorar as ligações de transporte regionais e resolver um estrangulamento logístico que atualmente limita o escoamento da produção industrial local. Estima-se que o porto venha a gerar um volume de negócios superior a 10 mil milhões de dólares quando estiver em pleno funcionamento.
Pedido de apoio governamental
A Huatong solicitou ao Governo angolano apoio para as futuras operações do terminal, nomeadamente através da atribuição de rotas marítimas e de uma melhor coordenação da rede logística do país.
O terminal situar-se-á na Zona Franca da Barra do Dande, criada com o objetivo de atrair indústrias, reduzir a dependência do petróleo e gerar cerca de 21 mil postos de trabalho.
Outros investimentos chineses na Barra do Dande
A região acolhe já o Parque Industrial Integrado Sino-Ord, que integra mais de dez fábricas, bem como o Parque Industrial de Alumínio da Huatong, cuja primeira fase iniciou a produção em janeiro de 2026, criando 1.200 empregos diretos e outros 800 indiretos.
Encontra-se ainda em construção uma refinaria de óleo alimentar, com conclusão prevista para meados de 2028. No total, a Huatong investiu já 250 milhões de dólares na primeira fase do projeto de alumínio e prevê aplicar cerca de 1,6 mil milhões de dólares em cinco fases, ao longo da próxima década.
Mudança de estratégia: de empréstimos a investimento direto
Os projetos em Angola, Quénia e Marrocos ilustram uma transformação mais vasta nas relações económicas entre a China e África. Os empréstimos chineses ao continente caíram para 2,1 mil milhões de dólares em 2024 — quase metade do valor registado no ano anterior e muito aquém do máximo de 28,8 mil milhões de dólares atingido em 2016.
Em contrapartida, as empresas chinesas têm privilegiado o investimento estrangeiro direto, o financiamento privado e os projetos comercialmente viáveis, abandonando a dependência quase exclusiva de grandes empréstimos com garantia governamental.
Implicações da mudança de modelo
A transição de empréstimos soberanos para investimento direto privado tem implicações estruturais:
1️⃣ Redução de risco de sobre-endividamento: Países africanos evitam acumulação de dívida pública externa
2️⃣ Viabilidade comercial: Projetos financiados por capital privado tendem a ser mais sustentáveis economicamente
3️⃣ Transferência de risco: Empresas chinesas (e não governos africanos) assumem risco de execução e retorno
4️⃣ Maior integração económica: Investimento direto cria presença operacional de longo prazo (vs. empréstimos pontuais)
